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21/05/2008
01
Ferraz - Qual a importância do
estudo sobre corpo e cultura na sociedade -----------------brasileira?
Mirian - Determinado modelo de corpo, na
cultura brasileira contemporânea, é uma riqueza,
talvez a mais desejada pelos indivíduos nas camadas
médias urbanas e também nas mais pobres, que
o percebem como um importante veículo de ascensão
social. O corpo tem sido um componente fundamental na construção
da identidade brasileira. Segundo a minha pesquisa, em um
país com pouco investimento em outros capitais –
como educação e cultura – o corpo acabou
se tornando importante capital econômico e social.
O estudo, do
qual participaram 1.279 homens e mulheres jovens do Rio de
Janeiro, resultou no recém-lançado livro O corpo
como capital (Estação das Letras e Cores), que
mostra a especificidade de uma cultura em que o corpo é
um componente fundamental na construção da identidade
nacional.
Meu argumento
central é que, no Brasil, determinado modelo é
um capital: um corpo jovem, magro e em boa forma, conquistado
por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício.
02 Ferraz - Entre
tuas pesquisas e publicações, em poucas palvras,
como tu -----------------------acredita
que o "brasileiro" tem compreendido o corpo?
Mirian - Um dado recente demonstra a importância
que o corpo adquiriu na cultura brasileira e como ele pode
ser um importante capital. Na lista feita este ano pela revista
norte-americana Forbes das cem celebridades mais poderosas
do mundo, os únicos brasileiros eram a modelo Gisele
Bündchen, que, segundo a revista, faturou US$ 33 milhões
em 2006, e o jogador Ronaldinho Gaúcho (US$ 31 milhões).
Não é à
toa que as profissões de modelo e de jogador de futebol
são, atualmente, muito desejadas não somente
por meninos e meninas das camadas mais baixas, mas, também,
das camadas médias brasileiras. Jogadores como Ronaldinho,
Robinho e Kaká usam seu corpo como capital. Por sua
vez, todas as mulheres imitáveis são aquelas
que também têm seu corpo como principal capital.
Ser atriz, modelo ou apresentadora de TV é o sonho
de nove entre dez meninas.
03 Ferraz - Como é o "corpo
da moda" da sociedade contemporânea?
Mirian -
A supervalorização do corpo é uma herança
do processo de colonização do país. Recorre
a Gilberto Freyre, que, no clássico Casa Grande &
Senzala, analisou a importância do corpo desde o início
da colonização brasileira como constituinte
da identidade brasileira.
De acordo com Freyre, o encontro
entre senhores e escravos no Brasil foi harmonioso e basicamente
sexual. Nossa colonização se deu por esse encontro
do português e da índia, que apreciou a valorização
de seu corpo por parte do colonizador. Depois veio o corpo
da escrava negra, que ocupou um espaço enorme na casa
grande e povoou o país.
A representação
do Brasil como um paraíso tropical e sexual, presente
na visão dos estrangeiros e também dos próprios
brasileiros, se mantém até os dias de hoje,
reforçada pelas imagens de corpos seminus no Carnaval
e nas praias.
A idéia de que o corpo,
no Brasil, é um verdadeiro capital, ajuda a compreender
melhor por que as brasileiras, junto com as norte-americanas,
são as maiores consumidoras da chamada indústria
da beleza. Dentro desse cenário, o Brasil já
é o maior mercado de academias de ginástica
na América Latina e o segundo maior em número
de academias no mundo. Em 1999, o país contava com
aproximadamente 4 mil academias e hoje tem em torno de 20
mil. Mais de 50% estão na região Sudeste, principalmente
no eixo Rio-São Paulo, 25% concentram-se na região
Sul e os outros 25% dividem-se entre as regiões Norte,
Nordeste e Centro-Oeste.
04 Ferraz - Na tua opinião, o que um pesquisador
que busca investigar o corpo -----------------nos
contextos atuais, sempre deve estar atento?
Mirian
- Acho importante
comparar e verificar o que está ocorrendo em outros
países. Agora estou estudando um fato importantíssimo
para todos: Em uma cultura em que o corpo é um importante
capital, no mercado de casamento e no mercado de trabalho,
como as mulheres vivenciam o envelhecimento? Quais os principais
medos das brasileiras ao envelhecer?.
Ao entrevistar
mulheres alemãs percebi que a visão delas é
que a mulher tem que aceitar o processo de envelhecimento
natural e valorizar outros capitais, como inteligência,
personalidade, poder ou relações de trabalho.
Elas vêem muito mais ganhos do que perdas com a idade.
As brasileiras não conseguem enxergar os ganhos, pois
ficam focadas com o que elas estão perdendo com a idade.
Há uma postura de vitimização das mulheres
nessa faixa etária por aqui, que aponta, predominantemente,
para perdas, medos e dificuldades associados ao envelhecimento.
MIRIAN
GOLDENBERG
Antropóloga
Doutora em Antropologia
Social
www.miriangoldenberg.com.br
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=E1483
Autora de Toda Mulher é
Meio Leila Diniz, A Outra, A Arte de Pesquisar, Os Novos Desejos,
Nu e Vestido, De Perto Ninguém é Normal, Infiel:
notas de uma antropóloga e O Corpo como Capital
O conteúdo e foto desta
entrevista são de responsábilidade da entrevistada.
Wagner Ferraz |