Entrevista com

Mirian Goldenberg - Antropóloga

 
 
 
Antropóloga e professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutora em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Foto do arquivo particular de Mirian
 
 

Autora de A Outra, Toda mulher é meio Leila Diniz, A arte de pesquisar, Os novos desejos, Nu & Vestido, De perto ninguém é normal, Infiel: notas de uma antropóloga e O corpo como capital.

Mirian Goldenberg tem orientado dezenas de pesquisas nas áreas de gênero, desvio, corpo, sexualidade e novas conjugalidades na cultura brasileira.

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21/05/2008

01 Ferraz - Qual a importância do estudo sobre corpo e cultura na sociedade -----------------brasileira?

Mirian - Determinado modelo de corpo, na cultura brasileira contemporânea, é uma riqueza, talvez a mais desejada pelos indivíduos nas camadas médias urbanas e também nas mais pobres, que o percebem como um importante veículo de ascensão social. O corpo tem sido um componente fundamental na construção da identidade brasileira. Segundo a minha pesquisa, em um país com pouco investimento em outros capitais – como educação e cultura – o corpo acabou se tornando importante capital econômico e social.

O estudo, do qual participaram 1.279 homens e mulheres jovens do Rio de Janeiro, resultou no recém-lançado livro O corpo como capital (Estação das Letras e Cores), que mostra a especificidade de uma cultura em que o corpo é um componente fundamental na construção da identidade nacional.

Meu argumento central é que, no Brasil, determinado modelo é um capital: um corpo jovem, magro e em boa forma, conquistado por meio de muito investimento financeiro, trabalho e sacrifício.


02 Ferraz - Entre tuas pesquisas e publicações, em poucas palvras, como tu -----------------------acredita que o "brasileiro" tem compreendido o corpo?

Mirian - Um dado recente demonstra a importância que o corpo adquiriu na cultura brasileira e como ele pode ser um importante capital. Na lista feita este ano pela revista norte-americana Forbes das cem celebridades mais poderosas do mundo, os únicos brasileiros eram a modelo Gisele Bündchen, que, segundo a revista, faturou US$ 33 milhões em 2006, e o jogador Ronaldinho Gaúcho (US$ 31 milhões).

Não é à toa que as profissões de modelo e de jogador de futebol são, atualmente, muito desejadas não somente por meninos e meninas das camadas mais baixas, mas, também, das camadas médias brasileiras. Jogadores como Ronaldinho, Robinho e Kaká usam seu corpo como capital. Por sua vez, todas as mulheres imitáveis são aquelas que também têm seu corpo como principal capital. Ser atriz, modelo ou apresentadora de TV é o sonho de nove entre dez meninas.


03 Ferraz - Como é o "corpo da moda" da sociedade contemporânea?

Mirian - A supervalorização do corpo é uma herança do processo de colonização do país. Recorre a Gilberto Freyre, que, no clássico Casa Grande & Senzala, analisou a importância do corpo desde o início da colonização brasileira como constituinte da identidade brasileira.

De acordo com Freyre, o encontro entre senhores e escravos no Brasil foi harmonioso e basicamente sexual. Nossa colonização se deu por esse encontro do português e da índia, que apreciou a valorização de seu corpo por parte do colonizador. Depois veio o corpo da escrava negra, que ocupou um espaço enorme na casa grande e povoou o país.

A representação do Brasil como um paraíso tropical e sexual, presente na visão dos estrangeiros e também dos próprios brasileiros, se mantém até os dias de hoje, reforçada pelas imagens de corpos seminus no Carnaval e nas praias.

A idéia de que o corpo, no Brasil, é um verdadeiro capital, ajuda a compreender melhor por que as brasileiras, junto com as norte-americanas, são as maiores consumidoras da chamada indústria da beleza. Dentro desse cenário, o Brasil já é o maior mercado de academias de ginástica na América Latina e o segundo maior em número de academias no mundo. Em 1999, o país contava com aproximadamente 4 mil academias e hoje tem em torno de 20 mil. Mais de 50% estão na região Sudeste, principalmente no eixo Rio-São Paulo, 25% concentram-se na região Sul e os outros 25% dividem-se entre as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

 


04 Ferraz - Na tua opinião, o que um pesquisador que busca investigar o corpo -----------------nos contextos atuais, sempre deve estar atento?

Mirian - Acho importante comparar e verificar o que está ocorrendo em outros países. Agora estou estudando um fato importantíssimo para todos: Em uma cultura em que o corpo é um importante capital, no mercado de casamento e no mercado de trabalho, como as mulheres vivenciam o envelhecimento? Quais os principais medos das brasileiras ao envelhecer?.

Ao entrevistar mulheres alemãs percebi que a visão delas é que a mulher tem que aceitar o processo de envelhecimento natural e valorizar outros capitais, como inteligência, personalidade, poder ou relações de trabalho. Elas vêem muito mais ganhos do que perdas com a idade. As brasileiras não conseguem enxergar os ganhos, pois ficam focadas com o que elas estão perdendo com a idade. Há uma postura de vitimização das mulheres nessa faixa etária por aqui, que aponta, predominantemente, para perdas, medos e dificuldades associados ao envelhecimento.

 

MIRIAN GOLDENBERG

Antropóloga

Doutora em Antropologia Social

www.miriangoldenberg.com.br

http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=E1483

Autora de Toda Mulher é Meio Leila Diniz, A Outra, A Arte de Pesquisar, Os Novos Desejos, Nu e Vestido, De Perto Ninguém é Normal, Infiel: notas de uma antropóloga e O Corpo como Capital


O conteúdo e foto desta entrevista são de responsábilidade da entrevistada.

Wagner Ferraz